terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

QUERO AGRADECER - LÚCIA HELENA PEREIRA


QUERO AGRADECER


QUERO AGRADECER. 

QUANDO PEDRO SIMÕES NETO CRIOU E FUNDOU A ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES - ACLA - OBSERVEI, COMO SE FOSSE MAGIA, OU FEITIÇO DE UM NOBRE DEUS, O DESDOBRAMENTO DA ENTIDADE, QUE NÃO RECEBEU NENHUM APOIO DOS PODERES PÚBLICOS. MAS ELE, UM VISIONÁRIO, OTIMISTA E PERSISTENTE, ABRIU UM GRANDE HORIZONTE E FEZ COM QUE A ACLA CHEGASSE AO PATAMAR DEVIDO. 

HOMEM RESPEITADO, PORTADOR DE UM SOMATÓRIO DE CONQUISTAS E, SOBRETUDO, DE UMA INTELIGÊNCIA INVULGAR, ALIADA A UMA GRANDE SIMPLICIDADE, EU DIRIA, UMA SIMPLICIDADE FRANCISCANA, EVOU A CARAVANA PELO GRANDE DESERTO E ENCONTROU SEU OÁSIS. 

AMIGO DOS AMIGOS, COM ELES CONFIDENCIAVA SUAS PREOCUPAÇÕES, ENCONTRANDO SEMPRE, SE NÃO A SOLUÇÃO DESEJADA, A PORTA QUE LHE MOSTRARIA O CAMINHO A SEGUIR. 

HOMEM DE PRINCÍPIOS HONESTOS, A QUEM CONHECI NA INFÂNCIA DO VALE VERDE, RECONQUISTOU-ME APÓS BONS ANOS, QUANDO NOS REENCONTRAMOS, EM NATAL/RN, NUMA REUNIÃO COM ENÉLIO LIMA PETROVICH, O ENTÃO QUERIDO PRESIDENTE DO IHG/RN. ESTAVA SELADA A NOSSA AMIZADE E EU CONVIDADA PARA INTEGRAR O QUADRO DE SÓCIOS DA ACLA. 

JAMAIS VI MAIS BELA PERSEVERANÇA COMO A DE PEDRO SIMÕES. NÃO DESISTIA DE UM PLANO BOM PARA A ENTIDADE E CONSEGUIA EM PARTE, O QUE TANTO ALMEJARA - UMA ACADEMIA LITERÁRIA PARA O VALE! EM 2011 CEARÁ-MIRIM TEVE ESSA GRANDE HONRA: A FUNDAÇÃO DA ACLA, NUMA NOITE LINDA E INESQUECÍVEL. 

EU DIGO OBRIGADA! 

E TAMBÉM AGRADEÇO A GIBBSON MACHADO QUE FOI O PRESIDENTE APÓS O ENCANTAMENTO DE PEDRO SIM ÕES, DEPOIS VEIO EMMANUEL CAVALCANTI, QUE FEZ BONITO E DEU UM BANHO DE COMPETÊNCIA E EMPRESTOU MUITO CARINHO A TODOS NÓS. 

SOMENTE EM MARÇO, JOVENTINA SIMÕES DE OLIVEIRA ASSUMIRÁ A NOVA DIREÇÃO. PEÇO A DEUS QUE CUBRA DE BENÇÃOS A NOSSA ACLA. 

AMÉM.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

COMENTÁRIOS DE EDUARDO CARVALHO SOBRE O TEXTO DE LÚCIA HELENA - SÍNTESE HISTÓRICA DA BRIOSA VILA.







Olá Lucia Helena, tudo bem? 

Somente ontem pude ler seu texto, tão ocupado ando nos últimos dias aqui no trabalho. Bela narração, repleta de sentimentalismo nobre e de valores maiores que, infelizmente, a cada dia se tornam mais extintos. Já disse antes e repito. Seu Vale é lindo! E tal beleza decorre principalmente de uma época áurea relativa a pessoas, valores e princípios que se escoaram, de maneira irreversível, ao longo dos anos. Tal leitura me levou a uma comparação imediata e inevitável de como pode uma realidade vigente há mais de um século ainda ser tão pungentemente superior à atual? Tanto em relação aos lugares físicos, que anteriormente possuíam uma beleza repleta do maior bom gosto e requinte; quanto no tocante às figuras humanas, tão impolutas e comprometidas com o torrão natal. Sofri ao final do texto, ao perceber o quanto o Verde Vale ficou órfão sem os seus engenhos mágicos e poéticos e sem a força de seus ancestrais, que colocavam ao dispor de sua terra todo o seu âmago... Parece até impossível que em pleno século XXI o "Solar Antunes" e o "Guaporé", entre tantos outros daquele tempo, ainda não encontrem qualquer construção moderna que consigam rivalizar-se em beleza, nobreza e como símbolo de uma época áurea. Da mesma forma se dá na essência poética dos seus, que ao meu ver, torna você - a última dos moicanos - a única digna representante literária, que conheço, de "Madalena" ou "Nilo", entre entre tantos outros dantes. Falo tudo isso sem medo de errar, pois o meu "Vale" também passou por idêntica decadência. Nossos domínios foram invadidos pela turba, nossas flores esmagadas, nossos sonhos esquecidos e nossas memórias expurgadas para que fôssemos extintos em definitivo. Contudo, enquanto existirem pessoas que consigam manter viva a tradição de sua terra, tudo estará vivo dentro de cada um de nós. Apesar de tudo, sobreviveremos e seremos os guardiões de tão belo legado. Parabéns pelo texto e pelo Ceará-Mirim antigo, ambos tão belos!

 Forte abraço. 

Eduardo Carvalho

UMA EXPLOSÃO DE AMOR - O CEARÁ-MIRIM EM POSTAL MEMORIOSO - PEDRO SIMÕES NETO, PATRONO DA ACLA



PEDRO SIMÕES NETO
Encontramos, no arquivo virtual desta Academia, a crônica do nosso Patrono (de saudosa memória), e que levamos até vocês. 


Uma explosão de amor ao Ceará-Mirim. O CEARÁ-MIRIM EM POSTAL MEMORIOSO 
Pedro Simões Neto - Patrono da Academia

 O tiroliroli e o tirolirolá de (de)trás-(d)os-montes, fez parelha com o bum bum bum d´Angola, e gostaram tanto um do outro que terminaram se amancebando nos canaviais e pariram pasteizinhos de Santa Clara, beijus e tapiocas, cocadas e vinhos de boa vindima e tome lundu, quadrilhas e umbigadas. E também a calidez e o sestro, a valentia e o rebolar sensual das ancas generosas das negras minas e dos frutos proibidos da casa grande com a senzala. O caldo de cana, a rapadura, o mel de engenho, o açúcar dito impropriamente bruto. E as brincadeiras de roda, as estórias de trancoso das senhoras baronesas e a dos ancestrais pretos velhos contadas pelas mucamas. O seu povo, ai Jesus! gente devota de Nossa Senhora da Conceição, de uma morenice que nenhuma terra tem; quando não é na pele, é na alma inteirinha tingida pelas raízes atávicas. Ah, Ceará-Mirim, Ceará-Mirim. Bendito os que nasceram nesse torrão de açúcar, com olhos de uma estranheza azul esverdeada porque lá o canavial e o céu criaram novos tons para essas cores; até mesmo os que os tem pretos ou castanhos, ficam com os olhos de maré, virando verde ou azul, furta-cores, ao sabor do sol sobre as marés. Meu Ceará-Mirim memorioso, às vezes caduco, vidente e cego, generoso e unha de fome, solene e moleque, religioso e profano. Terra de tanta fartura de inteligência que deu ao Rio Grande do Norte e ao Brasil uma grosa de gente afamada pelos escritos, pelas músicas e pelos atos de civismo. É tão grande a fartura que já serviu de comida aos porcos e ainda teve sobra pra quem quisesse. Mas tem um porém: o lá-em-cima e o lá embaixo das ladeiras vem sugestionando o povo. O velho e querido Bacuipe dos potiguares, sobe e desce que nem a sua topografia. Entre crises de desmilingue e garapas de silenciosa e fervorosa esperança, a cidade para no tempo, recolhe-se ao passado, esconde-se do futuro com medo do escuro. Quando chega a esse ponto, não tem jeito que dê jeito, tem-se que ir aos tororós dos antanhos para arrancar do memorioso passado uma razão para seguir sendo. Por isso, de vez em quando ando pra trás, que nem caranguejo. Tenho orgulho de ter bebido a água do Jericó e do Diamante, e endurecido a pele com a água salobra do Olheiro. Por isso que tenho couro grosso. Vivi sem encanamento nem saneamento, que era coisa de lombo de burro e de barris e de fossa com sumidouro. De ter atravessado as noites tenebrosas sem luz elétrica, fugindo dos lobisomens, bestas-feras e homens da capa preta. O candeeiro e as lamparinas não ajudavam e até atrapalhavam com aquelas sombras virando imagens e se mexendo que nem almas penadas... De ter morado na rua São João, num bangalôzinho danado de jeitoso que dava as costas ao cemitério, acordando todos os dias com a “baba dos defuntos”, segundo diagnóstico de Almerinda, o nosso anjo da guarda cor do ébano. (Não é pra me gabar, mas fui crismado por Frei Damião, em uma das suas missões e o meu padrinho foi o Monsenhor Celso Cicco, amigo do meu pai. E comi carne muitíssima mal passada, quase crua e sem sal num “cozinhado” de brincadeira feito por minha irmã Jojó e Teresa de Jorge Moura. E numa festa da padroeira ouvi de uma mocinha mais velha do que eu respondendo a uma proposta de namoro, que fosse “tirar o cheiro do mijo”) Êê Ceará-Mirim velho de guerra Dei uma ruma de “canga-pé” no Rio dos Homens; fui atleta de voleibol no Centro Social Leci Câmara e zagueiro do tipo “a bola passa mas a perna fica” do “Bacardi Futebol Clube”, organizado e patrocinado pelo finado Agnelo Sobral, representante dessa bebida. Fui aprovado no vestibular de macheza do Cipó de Maria Boca Rica e do Céu Azul, ´inda menino, quase de cueiros. Tive a regalia de ser protegido de Antonio Mulato, o cabra mais valente da região. De ter sido peladeiro com bola de borracha e tornozeleiras nos campos da maternidade, do motor e do cemitério. Fui dançarino meio sem jeito, depois afamado pé de ouro, no Náutico, no Ipiranga e no Centro. Amigo de Minhém, Zé Félix, Antonio Domingos, Lulu, Paíto, Humberto “mofado”, Zé Roberto de Rafael Sobral, Zé Araken, Quinca boi, Mário Eugênio botador d’água e astro do Náutico Esporte Clube, de Misael violonista, Lourival bexinguento. Membro efetivo da “Turma da Esquina de Chico Dantas”, privando da companhia inteligente, laboriosa e esperançosa de Duca Moreira, João Batista, Ademar Araújo, Poti, Hamilton Dantas, Sizenando, Emanuel Cavalcanti, entre tantos outros. Tomei banho de chuva de bica e corri chapinhando contra a correnteza das águas que desciam do Patu buscando o rio nas invernadas. Vi a cheia cobrir a ponte do Maceió e lavar o aterro. Fiz coro com os palhaços na chegada dos circos, andei atrás da banda de música. Vesti roupas e sapatos novos apertados na festa da padroeira. Ganhei entrada de cinema como prêmio de leitura no “Externato São José” do extraordinário educador José Tito Júnior. Fui aluno de dona Auta, mãe de Maria Xandu – que Deus as tenha – e de dona Lourdes de seu Agenor, mulher de Lulu da farmácia. A benção dona Edite, poeta inédita por vocação e genética, mãe de meu amigo Quinca, Ísis, Janete, Vicente e o jovem Agenorzinho. Vibrei com os seriados, comédias, desenhos e dramas do cinema de Jorge Moura, uma fábrica de sonhos. Comprei cavaco chinês e confeitos a Inácio Magalhães de Sena e balas Cuquita a Chico Dantas. Cortei cabelo com Erso, pai de Bubu da mercearia. Fiz política comunitária com Chicó Evangelista e Sebastião Palhares e votei em Emanuel Cavalcanti e depois Sebastião Palhares e Franklin Marinho, sucessivamente, para vereador. Nunca transferi meu título de eleitor para ter um pretexto de estar ligado à minha cidade. Andei no primeiro ônibus que fez a linha Ceará-mirim a Natal, de propriedade de Lauri Farias. Comi pão quentinho com a manteiga escorrendo nos cantos da boca na padaria de João Neto. Tomei sorvete e picolé no carrinho de Zé Gago e me fartei de tabletinhos de maracujá pecaminosos de tão gostosos feitos por Dona Ester. Ensinei História e Ciências na Escola Técnica de Comércio da paróquia, com 16 anos de idade. Passarinhei pelas bandas do Diamante, Capela e Várzea de Dentro, Lagoa Grande e Ilha Bela. Menino ainda defrontei-me com a visão do paraíso – Muriú, em seu esplendor ainda na juventude dos veraneios – e duvidei: será que Deus fez alguma coisa mais linda do que isso? Privei da amizade, menino ainda e já ligado aos mais velhos, de Clóvis Soares, Leó Cavalcanti, Manoel Pereira, Betinho Dantas, Major Onofre Soares, Aluizio Pipilza, Cleto Brandão, Chicó Pereira, Antão Barreto, Edson Cavalcanti, Chico Padre, Doutor Canindé, seu Aurelino, Paulo Sobral, João Neto, Jorge Moura, Valmir Varela (dona Celina foi minha professora de piano), o velho e saudoso Manoel Marques, José Costa, Chico Leopoldino, Rafael Sobral... são tantos ...e me deixei levar pela memória aperreada contrariando a recomendação de que o esquecimento de nomes tira mais créditos do que se conquista pela menção. Corro esse risco. Que dirá dos “anjos” da cidade: Luci Varela, Rosa Brandão, as Alices, de doutor Canindé e de Manoel Marques (Leda Marques de Hélio Venâncio tem a quem puxar), Dona Sinházinha de tão curta lembrança, madrinha de Auta, esta, mulher de Otávio Leandro que vendia coco na feira e assinava ponto todos os dias no “Café de seu Cleto”, dona Hilda Buriti, irmã da poeta Anete Varela... E dona Santinha, minha gente, cria da casa de Manoel Pereira, com uma asma renitente, sem saber que a sua criação de gatos era o motivo maior da doença...! Como o poeta Neruda confesso que vivi. Ceará-Mirim é o meu porto seguro quando velejo pelos incertos mares da memória, e não me venham com porquês, ora! Porque lugar bom para atracar o barquinho solto num tempo de tsunamis, é onde a gente se sabe protegido por uma estória cheia de calmarias.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

SÍNTESE HISTÓRICA DA BRIOSA VILA - LÚCIA HELENA PEREIRA




 "Mais coisas sobre nós nos ensina a terra do que todos os livros, porque oferece resistência”. (2) 

Entrar em Ceará - Mirim é rever a sua paisagem esplendorosa, seu verde alvissareiro, o cheiro peculiar de suas entranhas! É sentir os mistérios da natureza na beleza dos verdes canaviais; na visão dos bueiros dos engenhos aromatizando o ar! É lembrar as tradições da economia rural e patriarcal tão bem desenvolvidas, à época da civilização do ciclo da cana - de - açúcar, reunindo as famílias aristocráticas, exploradoras da terra, com sua nobreza, sua arrogância, seus sobrados, suas louças e pratarias da Inglaterra, seus brasões, seu poderio e seu estilo bem próprio de senhores de engenhos. Cresci ouvindo histórias sobre a terra que me viu nascer, em 9 de julho de 1945. Lembro - me do cenário místico do vale! Essa emoção continua a palpitar dentro de mim, como a rever os pássaros nos galhos das árvores do quintal da nossa casa anunciando o alvorecer de cada dia e cortejando - nos com as suas sinfonias. Há muito a se recordar nesses 146 anos de emancipação política e 122 anos de Ceará – Mirim, na categoria de cidade. É quando se comemora o passado que fez a nossa história; o presente, mesmo com todas as apreensões da difícil e conturbada época e o futuro, no qual depositamos esperanças de dias melhores. Afinal, não vivemos sem esses tempos, sem as vozes dos nossos ancestrais, sem os gestos marcantes, sem as figuras que lá nasceram e viveram, muitas das quais marcaram seus nomes à história política, literária e sociológica do vale! Saí de Ceará - Mirim aos seis anos de idade. Acompanhava - me a estrada esburacada e os arvoredos acenando ao vento, talvez despedindo - se de mim. Já em Natal, na convivência diária com vovó Madalena (Maria Madalena Antunes Pereira), nas conversações habituais com meus pais e na vasta correspondência com o primo Nilo Pereira e o tio Ruy Antunes Pereira, fui redescobrindo o meu paraíso perdido. Aos dezesseis anos, quando de uma visita espontânea, num roteiro romântico pela cidade e pelos engenhos, apaixonei - me profunda e ardentemente por Ceará – Mirim, a cidadezinha de tantas memórias, de tantos afetos, dos gestos largos que ainda sinto, como a acariciarem minhas lembranças fiéis. Nos idos de 1983, a conterrânea Lêda Marques (juntamente com um grupo de senhoras), passou a festejar, em grande estilo, o meu aniversário. Isso repetiu - se por vários anos e Ceará - Mirim ficou, definitivamente, no meu coração! Conforme relatos do meu pai, Abel Antunes Pereira, nos fins da década de 20, o progresso começava a interferir em tudo, menos no ar de romantismo imperando sobre o vale! Os costumes transformavam - se gradativamente. O automóvel surgia operando os milagres do desenvolvimento, mudando os hábitos da cidade pacata, silenciosa, antes só trafegada por veículos rudimentares: charretes, carros - de - bois, jumentos e cavalos de porte utilizados como transportes de mercadorias diversas. Em 1930, com a proximidade da Revolução e grandes mudanças, os chefes políticos não admitiam as novas lideranças. Os coronéis mantinham o seu poderio sobre as massas rurais, passivas e conformadas. Tudo ia seguindo as leis do tempo! Aos poucos as novas palpitações faziam pulsar o coração do povo. Tudo tornara - se diferente. A Revolução era um acontecimento que os mais velhos protestavam e os mais novos não compreendiam. Mesmo com todas as preocupações e ansiedades, o Ceará - Mirim jamais deixou de festejar suas mais importantes datas, onde os folguedos populares animavam a pequena cidade. E o pastoril conservando sua tradição: a lapinha, o fandango, o bumba - meu - boi, manifestações que o povo não esquecia. Poderia vir o progresso de onde viesse, ou os tumultos e impactos psicológicos, as tradições mantinham - se de pé. E foram chegando: a luz elétrica, o trem de ferro, o telégrafo, o caminhão! Os lampiões que ardiam suas chamas no querosene, para iluminar os casarões, os sobrados e as casas, iam se apagando! A cidadezinha foi recebendo os influxos das coisas novas. Eram os novos tempos anunciados! E, mesmo com o automóvel já circulando, os bons cavalos de sela nem, por isso deixaram de existir, depois, isso foi ficando ultrapassado. O sucesso das festas do dia 08 de dezembro, dia de N.Sra. da Conceição, padroeira de Ceará - Mirim, resistiu ao tempo. Uma festa jubilosa, a Matriz engalanada, fogos de artifícios, o dobre dos sinos ecoando pelo vale, as barracas com comidas típicas, a banda - de - música, a celebração da Missa, os bailes no clube, as pessoas passeando diante da Matriz, da praça barão de Ceará - Mirim, do Solar Antunes e do Mercado Público! Também, com igual entusiasmo, eram as festividades natalinas e do Ano Novo. Festas harmoniosas, fogos estrondando, a celebração eucarística com a Matriz ornamentada das mais exuberantes rosas, colorindo e perfumando o ambiente. Nessas festas, as noites do vale tão cheias de quietude, enchiam-se de ruídos e emoções múltiplas. E o final dessas comemorações era anunciado com a banda - de - música tocando os últimos dobrados. Relembro, então, a propósito, das palavras do meu pai: "Quanto me alegra o espírito recordar o Ceará-Mirim em todos os seus aspectos, principalmente no Ano Novo! Do alto da Matriz viam-se as casas - grandes dos engenhos. E lá estava o Guaporé, todo iluminado! E aquelas luzes davam - nos esperanças!” E relembrava, junto com ele, das amenidades daquele tempo! Neste meu passeio pelo passado, vale rememorar e enaltecer os patrimônios históricos embelezando o vale esmeraldino. Como não lembrar a imponência do Solar Guaporé ou Museu "Nilo Pereira", antes denominado Sítio Bonito? Era uma casa – grande, em estilo afrancesado! Pouco se sabe de sua história e quem teria sido o construtor, mas, deve remontar da segunda metade do século XIX e foi a herança deixada pelo Barão de Ceará - Mirim (Manoel Varela do Nascimento – meu trisavô) ao seu genro, Vicente Ignácio Pereira. O Dr. Vicente foi vice -presidente da província. Àquela época, enfrentou os terríveis efeitos da seca de 1877, doando o salário do referido cargo ao Hospital de Indigentes de Natal. Após sua gestão, na capital, retornou ao Ceará - Mirim, para o Guaporé. O Dr. Vicente veria a abolição dos escravos, mas não o fim do regime imperial, faleceu bem antes da proclamação da República e foi sepultado no cemitério de São Francisco, em Ceará - Mirim. Foi o segundo norte - rio - grandense formado em medicina, deputado provincial e jornalista. Ainda sobre os patrimônios históricos e culturais do vale, há de se reconhecer a importância da casa - grande do engenho Guaporé. Naqueles idos, era a casa de veraneio da nossa família. O interior do casarão comportava três salas de frente: o salão nobre com os retratos do Barão, o piano de cauda, paredes de veludo, uma chapeleira com espelho de cristal, mobília em jacarandá, três lustres de cristal, várias telas de artistas estrangeiros, uma cristaleira com vidros trabalhados (guardando copos e jarras de cristal em cores variadas e peças decorativas em porcelana). A sala rosa tinha uma antiga caixa-de-música trazida da Inglaterra (só com os belos clássicos); uma estante com numerosos livros, inclusive, a coleção “Tesouro da Juventude”; uma mesa grande com 12 cadeiras; uma escrivaninha com papel, caneta-de-pena e tinteiro. A sala azul era pequena e bem adornada, chamava atenção o tapete em duas cores: azul marinho com fundo verde e ilustrações em marrom, amarelo âmbar, violeta e grafite. Nas esquinas do Guaporé viam - se dois lampiões que davam para os jardins. Nas noites de festas a visão do sobrado destacava - se em todo o seu esplendor. Sabe - se que as pessoas deslocavam - se do solar Antunes e da cidade, para os grandes bailes e os saraus musicais e literários no Guaporé. Também, dois galgos de louça, sobre duas colunas, na entrada do velho casarão, que, segundo Nilo Pereira: “pareciam humanos, como se vissem, ouvissem e falassem”. Além do Barão e sua família, do Dr. Vicente Ignácio Pereira, também moraram na casa - grande o Dr. Riquette Pereira, sua esposa dona Augusta e os filhos. Ela, exímia pianista, conhecedora dos mais belos clássicos. O Dr. Riquette era uma figura bastante popular pela inteligência invulgar, pela vasta cultura, por falar correta e fluentemente o idioma francês e, também, por ser um charadista conhecido nacionalmente. Era leitor assíduo e apaixonado pelos grandes da literatura: Eça de Queiroz, Montaigne, Rousseau, Victor Hugo, Olavo Bilac, Castro Alves e outros. O solar Antunes foi construído em 1888, pelo tenente - coronel José Antunes de Oliveira, meu bisavô. Ao falecer, ficou aos cuidados da viúva Joana Soares de Oliveira que, posteriormente passou - o ao seu filho Juvenal Antunes de Oliveira (Promotor de Justiça e poeta). Em 1937 vendeu-o ao sobrinho Ruy Antunes Pereira que, após alguns anos cedeu - o ao filho Rui Pereira Júnior. Posteriormente, num gesto desprendido e já como Prefeito da cidade, em 7 de novembro de 1975 (data do seu aniversário), Ruisinho (como é mais conhecido), passou o palacete à edilidade cearamirinense. Desde a sua restauração, tornou-se a sede oficial da Prefeitura da cidade. Ceará - Mirim foi palco de grandes nomes no cenário político, literário e industrial (da cana - de - açúcar). Um exemplo é a família Meira, com o seu patriarca Dr. Olintho José Meira, o primeiro presidente da Província e proprietário de engenho Diamante. Destacou - se por sua expressiva e luminosa cultura, que, segundo contavam, valia por uma Universidade! Os Meira sobressaíram - se política, social, profissional e intelectualmente. A maioria, desde cedo, radicada no Pará: Miguel, Augusto, Otávio, Francisco José Meira (que foi senador). A outra geração, já no Pará, seguiu - se através de Clóvis Olintho Meira, Sylvio Meira e Cécil Meira, todos falecidos. Gratifica - me destacar alguns nomes que marcaram a política de Ceará -Mirim, integrando a história de ex - senadores, ex - prefeitos e ex - deputados: Dr. Manoel de Gouveia Varela, Dr. Luís Lopes Varela, Dr. Edgar Varela, Dr. Roberto Pereira Varela (falecido em 2006), Ruy Pereira Júnior, Dr. Eider Freire Varela (radicado no Rio de Janeiro e falecido este ano), Agnelo Alves, nascido em Ceará - Mirim, no dia 16 de julho de 1932, atual prefeito de Parnamirim/RN, Terezinha Jesus da Câmara Melo e, Ednólia da Câmara Melo, atual prefeita de Ceará – Mirim. É um privilégio lembrar os nomes que fixaram - se na memória do povo e constituem muito do nosso orgulho pelos exemplos de honradez. É quando vale enaltecer grandes figuras: professor Dr. Abner de Brito, professor e poeta, professora e poetisa Adélle de Oliveira, escritor Edgar Barbosa, senhor Joca Barroca (proprietário do primeiro cartório da cidade), Dr. Álvaro China (que abriu a primeira farmácia de alopatia em Ceará - Mirim), senhor Raimundo Pereira Pacheco (meu avô materno) - homem de impoluta memória, dono de armazéns de tecidos finos e outras mercadorias. Lembrar, ainda, a figura do major Onofre Soares (um homem de irrepreensível lembrança), Cleto Brandão, Almir Varela, Dr. Pacheco Dantas, enfim, os Villar, os Ribeiro, os Dantas, os Pereira, os Pacheco, os Varela, os Barreto e tantos outros que fizeram a história da Briosa Vila! Falando em nomes e história, trago - lhes com um encantamento especial, um dos mais importantes nomes do cenário literário do RN, de Natal, de Pernambuco e de outros Estados, reconhecido e enaltecido! Trata - se de Nilo Pereira, filho de Fausto Pereira e Beatriz de Oliveira Pereira, proprietários do engenho Verde - Nasce. Nilo foi uma presença humana de valor inconteste, intelectual elogiado e prestigiado. Amou o vale verde que ele próprio elegeu como a sua "pátria amada". A prova desse está nos seus escritos, sobretudo nos livros - "Imagens do Ceará -Mirim", "Evocações do Ceará - Mirim" e a "Rosa Verde", retratando a paisagem telúrica, sociológica, histórica, política e sentimental do vale. Era um homem de princípios religiosos, advogado, orador, político, professor de história da UFPE, membro da Academia Norte - Rio - Grandense de Letras, de Academias de outros estados, de Institutos Históricos e Geográficos do país e da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife / PE. Foi jornalista e cronista literário dos bons! Tinha uma coluna diária no Jornal do Comércio de Recife / Pe, intitulada: "Notas Avulsas". Portador de inúmeros prêmios literários, como o "Machado de Assis", pela Academia Brasileira de Letras, por conjunto de obras, o "Edgar Barbosa", e vários outros. Deixou - nos mais de 60 obras e incontáveis artigos de jornais. Faleceu em Recife / Pe, onde residia há muitos anos, em 22 de janeiro de 1992, com 82 anos! Quero, aqui, dedicar algumas evocações sobre os meus familiares, enaltecendo a figura do meu bisavô José Antunes de Oliveira, casado com Joana Soares de Oliveira. Desse casal, o Rio Grande do Norte recebeu quatro memoráveis nomes: Ezequiel Antunes de Oliveira (médico do exército, logo cedo transferido para Belém do Pará e depois, radicando-se em São Paulo); Etelvina Antunes de Lemos (poetisa); Juvenal Antunes de Oliveira (promotor de Justiça, boêmio e poeta, radicado, desde 1909 no Acre) e a primeira mulher potiguar a publicar um livro de reminiscências e regionalismo, Maria Madalena Antunes Pereira. Nasceram todos no engenho Oiteiro. Madalena Antunes nasceu em 25 de maio de 1880. Foi casada com Olympio Varela Pereira, dando a luz a cinco filhos: Abel Antunes Pereira; Ruy Antunes Pereira; Vicente Ignácio Pereira; Maria Antonieta Pereira Varela e Joana D' Arc Pereira do Couto. Do engenho Oiteiro, Madalena Antunes mudou - se para o Solar Antunes, posteriormente, para Natal. Vivia pacatamente, escrevendo numa mesinha de vime, sob o velho terraço da casa da avenida Hermes da Fonseca, 700. Era, assim, que ela manifestava o seu talento e fantasiava os seus momentos de solidões, numa época de tantos preconceitos em relação ao papel da mulher na sociedade, literatura e em outras atividades quase que destinadas apenas ao homem. Conviveu com intelectuais como Luiz da Câmara Cascudo, Manoel Rodrigues de Melo, Esmeraldo Siqueira, Veríssimo de Melo, Nilo Pereira (sobrinho dileto) e outros. E, de 1955 a 1959, recebia a visita vespertina de um jovenzinho, seu fervoroso admirador, Paulo de Tarso Correia de Melo, que tão magnificamente encantava - lhe. Com a amizade desse grupo, vovó Madalena descobriu a fórmula “mágica” para editar o seu livro, o qual, em manuscritas páginas, estava concluído. Presenciei essas “cenas” por algum tempo, observando a empolgação dos intelectuais diante da perspectiva de uma mulher potiguar infiltrar - se no mundo literário. E foi desses nomes da nossa rica literatura, que ela recebeu os maiores estímulos, até que, através do contacto de Câmara Cascudo e Nilo Pereira, com um escritor pernambucano, seus manuscritos chegaram à Editora Irmãos Pongetti e o livro foi editado com o apoio da Casa Euclides da Cunha, Coleção Nisia Floresta, em 1958. Eu tinha treze anos quando vovó Madalena terminou de escrever o seu romance. Estava organizado em papel almaço, quando me deu para ler. Lembro - me da minha emoção quando recebi esse material e das palavras anotadas, em letras de forma, que diziam: “Largo é o sorriso que me acompanha e estreito o caminho daqueles que não compreendem as poesias da alma. Eu sou apenas uma mulher feliz, alguém que aprendeu a canalizar os sentimentos sem se queixar diante dos embates da vida! Madalena Antunes!” Com toda a movimentação para o lançamento do seu livro, vovó Madalena foi surpreendida com a visita da jornalista Maria Tereza, redatora - chefe da revista “DA MULHER PARA MULHER” (1958). Veio do Rio de Janeiro para entrevistá – la e vovó ofereceu - lhe um chá com outros convidados. Maria Tereza perguntou - lhe: “Como a senhora se sente ao publicar o seu primeiro livro com tantas manifestações de carinho, notícias em jornais, intelectuais cercando-a a todo instante? E esse terraço”? Seus olhos oceânicos brilharam e respondeu: “Saí de uma vale encantado para a cidadezinha dos Reis Magos. Com o tempo fui reunindo as minhas reminiscências e encontrando escritores que me incentivaram nessa caminhada. Deixar o Oiteiro e a velha Ceará – Mirim deu - me algumas vantagens e os primeiros vislumbres intelectuais. Por outro lado venho sentindo falta da minha paisagem de infância, da mansidão do vale, dos parentes e amigos que lá ficaram. Quanto ao terraço, nele está a fronteira do meu pequeno grande mundo, a minha “ilha”, o meu refúgio, a mangueira frondosa e bela! Afinal, as árvores também saem dos seus lugares e dão sombras e fruto. Nelas os pássaros pousam e cantam as suas lindas estrofes musicais! Quanto ao livro, creio que a vida vai escrevendo a nossa história e o Oiteiro vai me levando de volta a um tempo ameno, cheio de poesia e beleza, ao meu “templo” de gratas recordações que deixarei para as novas gerações.” Dando continuidade, Maria Tereza insistiu: “Somente as recordações e saudades do vale levaram - na a escrever um livro?” Madalena Antunes sorriu e respondeu com doçura: “Ah! Os encantamentos da infância enriqueceram as minhas lembranças; o feitiço do Oiteiro com suas perfumadas auroras e os luminosos crepúsculos enchendo - me de inspirações! O Oiteiro, o velho engenho com o oitizeiro à beira da estrada! Aquele pedaço de céu foi o palco festivo de minhas recordações! A fonte perene dos meus sonhos de menina! Desde criança fui aprisionando minhas lembranças no coração, só não imaginava é que elas seriam impressas. Creio que isso foi seduzindo o meu espírito e privando - me da solidão comum desses novos tempos, aqui em Natal. Escrever, pelo menos para mim, é um exercício da alma, uma forma de suprir as solidões e saudades. E no Oiteiro, ficou o grande oitizeiro, o qual devo bendizer: Oh! Velho oitizeiro, figura do passado, templo de minhas primeiras impressões! Quantas coisas recordas! Oh! Árvore do pomar da minha felicidade”! Em 1958, na Fundação José Augusto (antiga Escola de Jornalismo de Natal), Maria Madalena Antunes Pereira autografou, em grande estilo, o seu livro OITEIRO: MEMÓRIAS DE UMA SINHÁ - MOÇA reunindo crônica, romance, poesia, história e regionalismo. Um livro reeditado pela A.S. Livros na II Bienal Nacional do Livro em Natal / 2003, prefaciado por mim. Madalena Antunes faleceu em 11 de junho de 1959, saindo da sua casa da Hermes da Fonseca, carregada pelas asas dos anjos, para outras dimensões. Em maio de 2001, no Palácio da Cultura de Natal, a Fundação José Augusto, através do seu presidente - jornalista e escritor Woden Madruga, com apoio do Governo do Estado do RN lançou a revista antológica: "MULHER POTIGUAR: CINCO SÉCULOS DE PRESENÇA", onde, entre as 24 mulheres homenageadas, está vovó Madalena. Da veia poética da escritora cearamirinense Maria Madalena Antunes Pereira, vieram os seus filhos: Vicente Ignácio Pereira, autor de um livro de poemas intitulado: "É BREVE O TEMPO DAS ROSAS", do qual posso citar o trecho de um dos seus poemas: "Onde estarão as roseiras/ nascidas no meu caminho? roseiras que davam rosas,/ com casas de passarinhos/ rosas, sem um espinho"? Ressalto, ainda, uma imagem poemática ímpar: "Só é breve o tempo das rosas para quem não plantou roseiras!" Ruy Antunes Pereira, escritor nato, deixou cartas tão perfeitas, como obras literárias, que sua filha, Denise Pereira Gaspar transportou - as para o livro: “MUCURIPE: O MUNDO ENCANTADO DE RUY ANTUNES PEREIRA”, em novembro de 1995. Dentre cartas tão corretamente escritas, quase todas voltadas para o Ceará - Mirim e para o Mucuripe, ressoará sempre uma frase lapidar do autor, na carta de abertura do livro, dirigida à minha pessoa: "Estarei sonhando? Este vale existe? E o verde, será uma cor ou um sentimento?" Do talento da memorialista do vale do Ceará - Mirim, tivemos seu neto, Ferdinando Pereira Couto, advogado, escritor e poeta de valor absoluto. Deixou vasto material literário, jamais publicado. Quanto ao meu pai, Abel Antunes Pereira, mesmo sem haver se dedicado às letras, era fervoroso admirador dos grandes autores brasileiros, além de gostar de declamar os sonetos do seu tio materno - Juvenal Antunes – e tinha, de cabeceira: Oiteiro - Memórias de uma Sinhá - Moça, (já citado); "Vingança Não", de Júlio Dantas; "O Tesouro da Juventude" (coleção oferecida, às cinco filhas: Marilene, Gipse, Suely, Iara Maria e Lúcia Helena), "Os Sertões" de Euclides da Cunha, entre outros. Finalmente, como um destino traçado, coube - me a missão de pugnar pela continuidade da vocação familiar, o que venho fazendo, desde os 12 anos de idade, quando tive o meu primeiro trabalho publicado no Jornal "A República". Desse modo, venho mantendo o espírito voltado para a literatura em geral. E sinto grande orgulho, por ter sido a primeira mulher norte – rio - grandense a presidir regional e nacionalmente uma entidade cultural em 14 estados. Ao proferir palestras enfocando as mulheres que se destacaram nas letras brasileiras costumo exaltar o Rio Grande do Norte - celeiro de notáveis escritores. Em 26 de março de 2002, com alta honra, assumi a cadeira nº 08, da Academia Feminina de Letras do RN, cuja patrona é vovó Madalena. Em abril de 2002, no Salão Nobre do Instituto Histórico e Geográfico do RN, na Reunião para eleição da nova Diretoria da Academia, fiz um discurso - síntese da vida de Madalena Antunes, minha avó paterna e excelsa patrona. Em novembro de 2004 fui eleita, por unanimidade, membro do IHG / RN, tão eficientemente presidido por Enélio Lima Petrovich. Voltar ao Ceará - Mirim é sempre uma emoção doce e renovada. Desta feita, não pude visitar a Matriz, que, segundo relatos dos meus pais, à época de sua construção, em 1883, recebeu a visita do Bispo de Olinda, Dom José Pereira da Silva Barros, que, ao benzer o prédio, exclamou emocionado: "Estou diante de um patrimônio histórico e religioso valioso e que, pela sua beleza e imponência arquitetônica, vai marcar a história deste lugarejo encantador!" O tempo não apaga tudo! Há coisas que vão ficando na nossa alma, como poemas de amor. E a vida vai tecendo novos caminhos, como a aranha ardilosa vai tecendo a sua teia insondável. Mas, sempre voltamos, e, aqui estou, trazendo nos olhos e no coração as saudades dos meus pais, Abel e Áurea, a quem reverencio como arquétipos de tudo quanto possa dignificar a minha vida. Saudades de babá - Regina Dias-; das minhas companheirinhas de infância, Chiquinha e Bililiu, que, se não são Tonha e Patica do engenho Oiteiro de Madalena Antunes, são as filhas de Inês, a ama - de - leite das crianças da nossa família; saudades dos olheiros vingados pelos caminhos, com suas águas escuras, suas vegetações, seus aromas e aquele barulhindo das águas trazendo nostalgias, e da suave dança das piabinhas prateadas! Saudades do compadre Joaquim Gomes, tocador de rabeca, com um anel de prata mareado no dedo mindinho, gordinho e atarracado, sempre agitado e suado, ainda me lembro das bolinhas de suor no seu nariz achatado enxugando - as com um lenço quadriculado e encardido, enquanto dava o seu concerto desafinado para papai e outros compadres; saudades do apito nostálgico do trem, que Joaquim Isidro da Silva (Quincas), empregado de papai e seu irmão Lebre (orelhas enormes) diziam: “Hum! Lá vem o bicho de ferro apitando e soprando fumaça ingual a cobra, parece inté o dono do mundo”... Saudades dos bueiros dos engenhos chorando ao alvorecer e regozijando - se ao crepúsculo; saudades da minha professora de primeiras letras, Valdecí Villar de Queiroz Soares (Valdinha); de dona Biluca, rendeira de almofadas de bilro -“venho de pés lá de Capela mode num andá de carro e trem que é coisa do cão”; saudades das chuvas descendo daquelas duas bicas (cabeças de jacarés em latão e cobre, amparando a queda d´água das telhas da frente casa - grande de minha infância). Ah! Saudades! Saudades de Chiquinha e Bililiu – de tantas brincadeirinhas; saudades das árvores seculares; dos meus avós, tios e primos; do quintal da nossa casa; das mangas rosas que dona Amélia Barroca enfurnava em um baú forrado com folhas de bananeiras; saudades do monsenhor Celso Cicco, que me batizou na Matriz de N.Sra. da Conceição! Saudades do meu padrinho, Dr. Olavo Montenegro, médico competente. Saudades de tantas saudades, Saudades das ruas silenciosas, da gente humilde, das cadeiras nas calçadas, das estórias contadas e recontadas Piô e Maroca (com suas almas lobateanas). Tudo isso, quando volto ao vale e saio impregnada de poesia e beleza! Nessa “viagem” sentimental sinto rejuvenescer a minha alma. Volto ao Ceará - Mirim com olhos de voltar, com olhos de menina, olhos de poeta e olhos de amor! Peço licença à distinta platéia, para dedicar esta mensagem aos meus pais(Abel e Áurea) e minhas irmãs: Marilene, Gipse (no céu), Suely e Iara Maria. Aos meus amados tios e primos: Rivaldo Pacheco - ou, simplesmente Riva - (in memória), Maria Assis Pacheco, Augusto Vaz Neto e Lurdeca (Lourdinha Pereira).

(1) Lúcia Helena Pereira
 Escritora

(2) Antoine de Saint Éxupery
Escritor

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

CARTAS DE COTOVELO 06 (versão 2015) - POR CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES.


CARTAS DE COTOVELO 06 (versão 2015) 
Carlos Roberto de Miranda Gomes 

 Embora um tanto magoado da vida e com menor capacidade para escrever as minhas Cartas, com algum esforço estou voltando ao estado de normalidade neste veraneio que já se aproxima do final. Consegui fazer algumas leituras praianas, nas quais incluí amenidades como: ”Cais natalenses”, do poeta Lívio Oliveira; “Um Equívoco de Gênero e outros Contos”, de Nelson Patriota e “Rosinha dos Limões”, de Augusto (Guga) Coelho Leal. Contudo, não descurei de obras sobre histórias do nordeste e, particularmente, da terra potiguar, a saber: 1. “A Sedição do Juazeiros”, de Rodolfo Teófilo, narrando a violência da política cearense no início do século XX, com o envolvimento de pessoas notabilizadas na região, como o Padre Cícero, Capitão José da Penha, Franco Rabelo e Floro Bartolomeu; 2. “O Exército em face das Luctas Políticas”, do Major Josué Freire, editado em 1938, no qual narra a saga autoritária do Interventor Mário Câmara nos episódios do processo eleitoral de 1934, e a participação do 21º BC, antecedente à Insurreição Comunista de 1935. Este último cuida dos episódios acontecidos desde a chegada ao Estado do Major Josué, no início de ano eleitoral, onde já se deparou com a truculência policial iniciada com o empastelamento do jornal “A Razão”, do líder sindical Café Filho e, no mais, dificultar o processo de alistamento e o comparecimento às urnas para o pleito de 14 de outubro de 1934, dos eleitores do Partido Popular (de oposição). O acirramento político teve uma vítima fatal, o assassinato do Engenheiro Octávio Lamartine de Faria em 1936, no Município de Acari, por uma volante policial comandada por um Tenente. Ele era filho do ex-Governador Juvenal Lamartine. O inusitado do caso foi o conflito entre o Presidente do Tribunal Regional Eleitoral, Desembargador Antonio Soares de Araújo e os demais membros do referido Tribunal (Manoel Sinval Moreira Dias, José Theotonio Freire, Horácio Barreto de P. Cavalcanti, Sebastião Fernandes da Silva, Mathias Carlos de Araújo Maciel Filho e do Procurador Miguel Seabra Fagundes), quando, por conta da concessão de vários habeas corpus em favor de eleitores prejudicados e pedidos de garantia de vida por renomados próceres potiguares (Médico José Tavares, Deputado Federal Alberto Roselli, Dr. Bruno Pereira e o empresário João Severiano da Câmara, dentre outros), o Presidente por ofício datado do dia 2 de fevereiro de 1935 requisitou tropas federais para a garantia das eleições suplementares no mesmo mês nos municípios de São Gonçalo, Goianinha, Lajes, Caicó, Currais Novos, Pau dos Ferros, Ceará-Mirim, Baixa Verde, :Arêz, São Miguel, Touros, Jardim do Seridó, Martins, Flores, Assú, Acari, Mossoró e Luís Gomes, enquanto o Plenário do TRE aprovava decisão em contrário, sob a alegação da incompetência do Presidente para tal medida, somente possível pelo Tribunal. De qualquer forma, o fato conseguiu evitar nova truculência, haja vista que houve algum deslocamento de tropas, que permaneceram em estado de alerta e o pleito foi realizado sem maiores percalços, do que provocou a alteração do resultado das eleições de outubro de 1934, então favorável ao partido do Interventor (Aliança Social=PSD e PSN), para a vitória dos candidatos do Partido Popular após a apuração da eleição suplementar proclamada um ano depois, que conseguiu eleger o Governador da oposição Rafael Fernandes Gurjão. O clima, no entanto, continuou agitado, com movimentos da classe trabalhadora, que realizou greves até que em novembro ocorreu a “Intentona Comunista”, de curtíssima duração. Estranhamente, em 1962 quase se repete o fato, com a controvérsia: o Tribunal solicitava reiteradamente a garantia de força federal, mas o TSE demorava a decidir baseado em informações do General Muricy, que por sua vez tinha a promessa do Governador Aluizio Alves de garantir o pleito, enquanto este mesmo Governador fazia proselitismo político acusando o TRE de não querer a força federal provocando a decisão do Colegiado de suspensão do pleito, quando então o TSE, tomando ciência da verdadeira história, apoiou o Tribunal Regional e as tropas se deslocaram em tempo, evitando qualquer tentativa de fraude nas eleições, que ocorreram sem qualquer problema.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

"EU LEMBRO, VOCÊ LEMBRA, NÓS LEMBRAMOS";;; - LIVRO DA AUTORIA DE GRACINHA BARBALHO, QUE TIVE O PRAZER DE LER E AQUI COMENTO.


"EU LEMBRO, VOCÊ LEMBRA, NÓS LEMBRAMOS"...
GRACINHA BARBALHO

Gracinha Barbalho, como é mais conhecida, presenteou-me ontem (03-01), em Muriú, com um exemplar do seu livro: “Eu lembro, você lembra, nós lembramos...”, autografado em 2012.

Minha conterrânea e confreira na ACLA (Academia Cearamirinense de Letras e Artes "Pedro Simões Neto"), que vou descobrindo, como tantas outras, num patamar de grande inteligência e cultura geral, afinal, não tive tempo de conhecer boa parte do povo da minha terra, vez que, saí do Vale Verde aos seis anos e oito meses, perdendo pela estrada os meus brinquedos, a gente, algumas paisagens.

Disse um sábio que tudo volta e é verdade. Verdade linda e pura quando, vamos reencontrando as figuras do passado.

Nesse livro, Gracinha traz com emoção e grandeza, a começar pelo prefácio magistral da conterrânea Gracinha Brandão Soares, sua alma em pedaços, fragmentos do seu existir como filha do Ceará-Mirim. É quando reúne, ao mesmo tempo, poesia, provérbios e crônicas, num soluço de saudade, boas recordações, vivências e fatos que marcaram sua vida.
Na memória fotográfica do livro, figuras e ocasiões marcantes do seu tempo feliz, naquela paisagem proustiana e dileta, quando o tempo tinha a magia das horas que não passam, para fixar-se definitivamente, como um quadro na parede, que se movimenta e seduz, à medida em que o vento e o sol interferem em sua imobilidade serena.

Muitas mãos vasculhando as emoções da autora que diz em versos, os grandes sentimentos de cada hora. E não se trata apenas de um livro, mas de um elenco inesgotável, num fila iluminada para receber troféus. Troféus que a vida ensinou a conquistar.

O Vale Verde é surpreendente porque tem o sopro da poesia amorosa mergulhada nos massapés, como a própria capa do livro que retrata um canavial e os cortadores de cana e que, coincidentemente, é da autoria de Gilson Nascimento, que fez a capa do meu primeiro livro.

Poesia há no estilo, saudosismo, beleza e a liturgia amorosa de acontecimentos que só nos engrandecem e enriquecem.

Páro por aqui, vou enfeitar minhas saudades com as cores dos canaviais e do céu de Ceará-Mirim. Sinto-me em  estado de graça, confreira, esse passeio pela alma dos tempos é um verdadeiro deleite. Agradeço.

Lúcia Helena Pereira